A Rockstar Games construiu uma trajetória notável, marcada principalmente pelo sucesso estrondoso de sua série mais popular, Grand Theft Auto (GTA), que se tornou um fenômeno na cultura pop. Contudo, o portfólio da empresa também abriga uma gama de títulos menos conhecidos, mas que conquistaram um status cult ao longo dos anos. É impressionante que um mesmo estúdio tenha sido capaz de criar um simulador de tênis de mesa incrivelmente detalhado e um dos maiores jogos de mundo aberto já feitos, como Grand Theft Auto: San Andreas. A diversidade e a alta qualidade de suas produções são inegáveis.
Embora a Rockstar seja hoje mais conhecida por seu foco em títulos singulares, dedicando muitos anos a um único projeto, seu histórico revela uma constante vanguarda em inovação em diversos gêneros. De fato, um dos seus jogos mais aclamados inaugurou um gênero que, curiosamente, foi amplamente abandonado pela própria desenvolvedora e pela indústria em geral. É uma pena, pois o gênero de detetive, popularizado pela Rockstar com sua obra-prima L.A. Noire, tem um grande potencial no universo dos videogames e merecia mais atenção.
Rockstar Impulsionou o Gênero de Detetive e Depois o Abandonou

L.A. Noire evoca lembranças marcantes, com sua capacidade de mergulhar o jogador em mistérios de uma forma inédita. Antes de explorar suas qualidades, a paixão por jogos de investigação, como Phoenix Wright e Ghost Trick: Phantom Detective, já era evidente. Assim, quando L.A. Noire chegou, com seu luxuoso Cadillac Series 61, a expectativa era alta. Apesar da pouca experiência na época e das dificuldades em desvendar os crimes complexos, mesmo diante de suspeitos com expressões faciais exageradas, a experiência era cativante. O mundo aberto expansivo, as sequências de perseguição eletrizantes, a meticulosa investigação de cenas de crime e a inovadora tecnologia MotionScan criavam um conjunto envolvente.
O entusiasmo por L.A. Noire, um dos melhores jogos de detetive já feitos, não foi isolado. O título obteve sucesso crítico e comercial, confirmando o interesse do público por jogos focados em mistérios. Parecia o prenúncio de um futuro promissor, onde o gênero de detetive ganharia a mesma popularidade do mundo aberto. No entanto, a trajetória tomou outro rumo. O rompimento entre a Team Bondi e a Rockstar, após diversas polêmicas que levaram ao declínio do primeiro estúdio, resultou no seu fechamento em 2011. A Rockstar, embora detivesse os direitos intelectuais, demonstrou pouco interesse em dar continuidade ao projeto, limitando-se a algumas missões em realidade virtual.
A produção de L.A. Noire foi dispendiosa, e a tecnologia MotionScan, embora revolucionária para a época, ainda apresentava limitações. Ainda assim, o potencial para novas aventuras era considerável, com possibilidades de ambientações em diferentes épocas, cidades ou com novos protagonistas. Contudo, decorridos 15 anos de seu lançamento, a Rockstar não deu sinais de um possível retorno com uma sequência. Acredita-se que um novo L.A. Noire seja improvável, especialmente devido ao longo tempo decorrido, que diminuiu o ímpeto em torno da franquia e do gênero de detetive como um todo. Apesar dos esforços da Team Bondi em criar um simulador de detetive imersivo e do sucesso do jogo, o gênero não alcançou a proeminência esperada no cenário AAA.
Essa não é a primeira vez que a Rockstar inova em um gênero para depois deixá-lo de lado. Jogos como Rockstar Games Presents Table Tennis e Bully, um simulador de vida escolar em mundo aberto, são exemplos disso. Apesar da demanda do público por títulos semelhantes, os custos e o tempo de desenvolvimento cada vez maiores, somados à aposta em lançamentos perenes, impedem que a Rockstar invista em projetos de nicho. É lamentável, pois o gênero de detetive possuía um potencial real de prosperar, especialmente em um meio como os videogames, capaz de oferecer uma imersão e interatividade únicas. Felizmente, o cenário não é totalmente desanimador, e um retorno do gênero pode ser viável.
O Gênero de Detetive Pode Renascer, Mas Precisa de Apoio

Embora L.A. Noire não tenha conseguido popularizar o gênero de detetive no cenário AAA, ele tem sido mantido vivo por desenvolvedoras de porte médio e independentes. A Frogwares, conhecida por sua série Sherlock Holmes e por explorar temas de horror cósmico, tem se dedicado consistentemente a jogos de mistério e detetive. Seus títulos, embora talvez não atinjam o mesmo nível de polimento da Rockstar, apresentam investigações envolventes e cada vez mais ambiciosas. O mais recente lançamento da desenvolvedora, Sherlock Holmes: Chapter One, oferece um vasto mundo aberto repleto de casos secundários para resolver.
Além da Frogwares, diversos jogos de detetive independentes e de porte médio se destacam, superando L.A. Noire em muitos aspectos. Paradise Killer é um exemplo notável de jogo de mistério, e Pentiment, da Obsidian Entertainment, é uma obra intrigante e rica em detalhes com uma pegada medieval. No entanto, estes títulos, somados a outros poucos, não são suficientes para suprir a demanda por um gênero que deveria ser mais explorado. Jogos de detetive merecem alcançar a popularidade de RPGs, pois elevam o potencial dos videogames, que já são muito apreciados em outros formatos.
Criar um ciclo de jogabilidade envolvente que integre elementos como reações faciais, coleta de pistas e dedução de forma natural e imersiva é um desafio considerável. Diferentemente da maioria dos RPGs, jogos de detetive exigem uma execução precisa para serem bem-sucedidos. Ademais, a ausência de títulos AAA nesse gênero pode desencorajar novos desenvolvedores a criarem suas próprias obras. O que o gênero precisa é de um grande sucesso, semelhante ao impacto de L.A. Noire, ou como o filme Knives Out fez no cinema. Uma sequência de L.A. Noire pela Rockstar poderia ser uma solução, embora pareça improvável. No entanto, se a Frogwares alcançar o reconhecimento que merece, ou se outra desenvolvedora de renome apostar em um novo ícone do gênero, poderemos testemunhar uma reinvenção, similar à que quase aconteceu antes.
Fonte: CB






